sábado, 26 de abril de 2008

Carnaval: espetáculo de exclusão



O carnaval no Brasil é considerado uma das festas populares mais bonitas do mundo. Todos dançam, cantam, representam e deixam a alegria tomar conta do corpo. Alegria essa, explorada muitas vezes pelos capitalistas presentes em nossa sociedade.
Na chamada época de ouro, no fim do século XIX até a década de 50, a participação da população nas ruas e nos bailes era mais ativa, hoje o carnaval transformou-se numa espécie de gerador de capital, onde as pessoas pagam para ver o que antes era exibido e compartilhado com glamour nas ruas de todo o território brasileiro. Como declarou Câmara Cascudo, “o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver”.
No carnaval de Salvador, festejo apreciado por pessoas do mundo inteiro, por ser uma festa mais compartilhada pelo povo, está perdendo também sua essência. Pois, a folia que antes era dançada, pulada e alegre, aos poucos está se tornando palco dos mais aquinhoados economicamente. Onde nas ruas, são erguidos camarotes nas partes laterais da cidade que na grande parte ficam os mais favorecidos assistindo, e no meio, nas pistas, ou seja, abaixo deles, os menos favorecidos, servindo de atração, pintando o nariz e brincando de ser feliz.
Esses grandes camarotes erguidos no carnaval de Salvador, fazem parte de uma indústria carnavalesca, geradora de consumo e de exclusão de uma parte da sociedade da festa mais bonita, rica de costumes e de encantamento.
Há! Imagina só que loucura era essa fissura, alegria, alegria, era o Estado que chamamos Bahia. Será que um dia vamos rever o carnaval de todos os cantos, encantos e axés? Não sabemos! A única coisa que temos certeza é de que a cada carnaval, pessoas menos favorecidas economicamente, estão sendo excluídas dessa festa que a princípio seria de todos, e que geralmente está sendo dos grandes detentores do poder. Sendo que os pobres ficam de peça só servindo aos poderosos. Enquanto esses poderosos se divertem, os pobres, ou seja, os “trabalhadores do carnaval” labutam para a solução da exclusão, esses que mesmo trabalhando em quanto outros se alegram, são felizes e se divertem também sem dinheiro, e que de certa forma, suscita mais capital para o bolso dos representantes exclusivistas.

Loucura feminina gera lucro

Padrão de beleza feminino leva mulheres brasileiras à loucura como também tem gerado muito lucro para academias e profissionais da medicina estética. Quem será que impõe esses padrões de beleza? É a pergunta que muitas pessoas fazem ao ver o desatino de várias mulheres malhando, suando, correndo contra o tempo e para as clínicas que propõe realizar o sonho de tornar todas perfeitas.
A divulgação dos padrões de beleza ocorre pelos veículos de comunicação no intuito de gerar lucro para os grandes empresários e para a indústria da beleza. Essa propagação tem provocado uma fúria desenfreada feminina, pois, além de determinar as mulheres como elas devem ser, ainda poderá levá-las a morte. Isso porque muitas vezes, não são medidas as conseqüências para adquirir um corpo perfeito como dita a mídia juntamente com o nosso sistema capitalista.
Para adquirir o estereótipo perfeito que impõe as revistas, os jornais, as propagandas e principalmente as novelas, o público feminino teria que investir muito, investimento esse que realiza a felicidade de muitos empresários, atingindo o ápice da loucura de muitas mulheres e evidenciando a grave discriminação da mulher como ser humano. Mas será que alguém se importa com isso, nessa sociedade onde o que importa é o lucro e a felicidade do próprio eu?
É mulheres, realizar o sonho de um corpo perfeito dá gasto e prejuízo a saúde para muitas, além de alimentar nosso sistema capitalista injusto que as explora como produtos de consumo. Porém, mesmo sabendo disso, muitas de nós continuam a se massacrar e enlouquecer por um corpo perfeito como os das atrizes dos programas de televisão. Quer dizer, dos programas das belíssimas e não das fofíssimas.

"Comentário sobre o documentário Janela da Alma"


No início tudo era escuridão. Depois tudo foi ficando claro, nítido e visível. Visibilidade esta, que só se percebe verdadeiramente com os olhos da mente, ou seja, com os olhos da alma. Estas palavras expressam o que entendi sobre o documentário “Janela da Alma”, sob a direção de João Jardim e Walter Carvalho. Palavras que mesmo que “truncadas” como disse o poeta Manoel de Barros, são formas de expressar o que está na imagem do meu eu.

O documentário Janela da Alma contém depoimentos de deficientes visuais que servem como forma de estímulo para muitas pessoas, que por causa de uma deficiência mínima, e por dificuldades na vida, desistem de algo que tanto almeja. Depoimentos aos quais, demonstram que através da “luta podemos superar as dificuldades e vencermos os limites”, como relata o vereador Arnaldo Godoy. Godoy ficou completamente cego aos 17 anos, e sua história de vida, se tornou tão bela que o fato de não enxergar as coisas como os “não deficientes”, não perdeu seu otimismo e o amor pela vida.
Assim como Godoy, Marjut Rimminem uma cineasta finlandesa, contou sua história. Através de sua profissão, Marjut pôde realizar seus sonhos. Transformou-se em várias personagens que sempre quis ser, pois, nas peças infantis na escola, onde ela só poderia ser uma pedra, no final, só durante apenas três minutos se transformava em um rei. Hoje, através de seus filmes ela pode demonstrar para o mundo, o quanto pessoas como ela são tão capazes de enxergar e realizar algo, quanto os que se dizem “completamente aptos”.
Somos seres que nos adaptamos a tudo. “Queremos fazer tudo, queremos ter tudo e ver tudo em excesso”, palavras de um dos participantes do documentário. Só esquecemos que não temos todo o tempo do mundo para tudo isso. Acabamos deturpando as imagens mais lindas que poderíamos projetar com a nossa própria janela da alma. Imagens estas, que poderíamos nos emocionar mais e, aguçar nosso senso crítico para “aquelas imagens” que nos fazem tornar meros consumidores e espectadores mórbidos, que não enxerga o que está diante do próprio nariz.
Essa mania que nós seres humanos temos de crermos somente no que vemos, tira-nos a capacidade de projetarmos as imagens mais importantes, que é as imagens das nossas lembranças, que é a “transfiguração do que agente ver”, pronunciou Manoel de Barros. Essas palavras de Manoel poeta e sábio traz uma reflexão muito importante sobre como modificamos as imagens vistas, fazendo nos lembrar que no simples, podemos ver a beleza “verdadeira”, e no sofisticado vemos apenas o que os outros querem que a gente veja.
Como disse o próprio poeta Manoel: “Se o olho é a janela da alma, você tem que olhar para essa janela com outros olhos”. Esses olhos farão de mim, de você e de qualquer simples mortal um ser mais fidedigno e responsável pelos próprios atos. Afinal, nós temos a capacidade de ver o visível e o invisível, basta olharmos para dentro de nós mesmos, pois, temos toda a bagagem e experiências acumuladas que estão arquivadas na nossa mente, ou seja, na janela da alma.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Invisibilidade social

Su Mendonça

A invisibilidade social é um conceito empregado aos indivíduos discriminados pela própria sociedade em que está inserido. Ser invisível, é não ter importância para seu grupo social, é sofrer a indiferença, o preconceito, “é não ser ninguém perante o olhar da maioria” (livro “Homens invisíveis” do psicólogo Fernando Braga da Costa). A invisibilidade é concretizada a partir do momento em que uma parte da sociedade impõe regras as quais a maioria dos indivíduos são obrigados a seguir, não seguindo estas, o indivíduo é esquecido socialmente tornando-se inexistente para o restante do grupo.

São diversos os fatores, que podem contribuir para que a invisibilidade social continue arraigada em nossa sociedade: sociais, culturais, econômicos, políticos e estéticos. A invisibilidade pode levar um indivíduo a processos depressivos, causando a sensação de abandono e aceitação na condição de ninguém, mas também pode levar a mobilização e a organização da minoria discriminada. Essa minoria social é prejudicada a maioria das vezes, pelo sistema capitalista, onde é mantido pela lei do mais valia, ou seja, as minorias sociais são visíveis somente para o mercado consumidor, essa é uma das formas de visibilidade aos indivíduos excluídos economicamente.

A falta de comunicação entre as pessoas também é um fator que causa a invisibilidade e que talvez seja um dos mais preocupantes. A realização de diálogo entre pessoas faz-nos sentirmos mais importantes e de certa forma valorizados. O olhar de uma pessoa sobre outra pode causar impactos meramente inusitados e um olhar de desprezo pode causar revolta e futuramente outras tragédias. Um indivíduo que é reconhecido socialmente tende a progredir e estabelecer padrões aos quais o sistema emana, criando assim sua identidade.

No entanto, existem milhares de crianças e adolescente em Salvador e em todo o mundo que infelizmente são tratadas como se não existissem, desprezadas por uma parte da sociedade cujo interesse só é captar lucro e ressarcir interesses próprios, deixando de lado toda uma geração cheia de sonhos e necessidades a serem saciadas.

Estas crianças e adolescentes por não terem suas necessidades saciadas e terem um padrão de vida desumano, são esquecidas pela sociedade, sendo discriminadas, humilhadas e até mesmo sendo vítimas do preconceito estético e dos maus tratos da polícia e da própria sociedade (Falcão-Meninos do tráfico), ou seja, por serem mal vestidas e por fazerem parte de um grupo economicamente excluído, os detentores do poder violam a Declaração Universal dos Direitos Humanos onde diz que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Quando os direitos humanos passam a ser violados, a situação torna os indivíduos propícios a atos barbáries, causando revoltas e a organização de grupos considerados nocivos (pessoas que se juntam para conseguir aparecer perante a sociedade, como: MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra), a Central Única de Favelas (CUFA), fóruns nacionais, estaduais e municipais de defesa dos direitos da criança e do adolescente. Esses grupos também podem ser encontrados no crime organizado, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) para os detentores do poder (Texto Invisibilidade Social: outra forma de preconceito- Mateus Constantino-SP) .
O que fazer para tentar combater essas mazelas que a invisibilidade e a luta pela sobrevivência impõem para esse grupo desfavorecido?

Para que esse problema fosse solucionado, aos poucos teríamos que começar a conscientizar toda sociedade sobre o problema que assola no nosso país e no mundo. Problema este, que aumenta a violência, a miséria e a pobreza de uma nação. Poderíamos começar essa luta, tentando modificar os discursos gerados pela classe hegemônica inserida nos veículos de comunicação cujo interesse é imobilizar a grande massa, determinando padrões de comportamentos (Loraci Hofman) dos indivíduos.

Para mobilizarmos essa grande massa, seria necessário mudarmos esses discursos construídos para alienar a sociedade sobre as diversas mazelas existentes no estado, no país e no mundo. Na tentativa de construir uma nova realidade, essa mobilização social seria elemento indispensável para uma chamada “revolução cultural” (Prof. Jorge Lisboa), ou seja, modificação do modo de pensar, agir e perceber as coisas do povo massacrado pelo “discurso autoritário” (Orlandi-1996, citado por Hofmann) impregnado na nossa tradição.

Após essa revolução cultural, aí sim, pensaríamos numa outra possibilidade de apaziguar este preconceito que fere, diminui e discrimina a maioria da nossa população mundial, estigmatizada como invisível, no sentido de significar que a maioria por pertencer a um patamar inferior como coloca a mídia, as minorias sociais não merecem respeito e oportunidade perante a sociedade, só merecendo esse respeito e oportunidades os favorecidos economicamente, ou seja, quem detém o poder que cuida de encaminhar as coisas na direção que atenda basicamente aos seus interesses, e não ao interesse de todos, apesar da aparência contrária (O que é Cidadania – Maria Covre).

Em suma, só se tornará possível essa revolução cultural a partir do momento em que existir a prática da reivindicação, do respeito aos direitos humanos e da cooperação das forças econômicas e políticas para se efetivar, onde as necessidades humanas básicas serão saciadas permitindo a todos uma vida digna e justa.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A cor que não atrai

Su Mendonça

Em Salvador, cidade afro-descendente, bonecas negras não tem espaço.

Salvador é a capital brasileira que tem a maior população de afro-descendentes, entretanto, comprar uma boneca negra nas lojas de brinquedos, é uma tarefa que requer muita persistência. Além disso, o consumidor se depara com pouca variedade, e uma das principais reclamações, diz respeito ao estereótipo das bonecas. Para Lidiane Santos, 22, manicure, as bonecas negras vendidas, são feias.
Movimentos negros na região Nordeste tentam de várias maneiras aumentar a quantidade de bonecas negras nas lojas da capital, mas os lojistas continuam resistentes pela pouca procura e falta de interesse pelo produto.
De acordo com os gerentes de algumas lojas de brinquedo de Salvador, esse tipo de comércio não está satisfatório, pois, a maioria das crianças já chega procurando as bonecas de cor branca que fazem o estilo estadunidense, gerando, assim, prejuízo nas lojas que disponibilizam as bonecas negras. Segundo o gerente das lojas Americanas do Center Lapa, José Rocha, “as crianças já chegam às lojas procurando as bonecas brancas que estão no auge”.
Alguns pais entrevistados acham um absurdo a falta de divulgação das bonecas negras na mídia, e dos comerciantes em colocar mais bonecas desse tipo no mercado. Roseli Firmino, 41, enfermeira, disse que sua filha adora e muitas vezes não compra por não existir propagandas de lojas que tenham esse tipo de produto. “Essa deve ser uma forma de ratificar o racismo”, diz Roseli. “Minha filha nunca me pediu pra comprar uma boneca negra para ela, também nunca incentivei, pois, toda vez que chegava ao mercado, eu encontrava mais bonecas negras feias, tipo a nega maluca,” fala Ana Borges, 39, enfermeira.
Segundo a psicóloga Martha Leal, a maneira como as crianças chegam às lojas, escolhendo as bonecas brancas, é devido ao incentivo tanto da mídia, quanto da criação dos pais. “Os pais devem instruir as crianças com uma visão mais humanitária, ensinando-as a valorizar as pessoas pelo o que ela é independente da raça. Porém existe a questão do comércio, que não investe neste tipo de produto por não existir uma grande demanda, pois, a maioria do público interessado não tem condições financeiras para comprar as bonecas, que são muito caras”, afirma Leal.

Rádio Educadora FM